Nobel da Paz dá nova dimensão à luta contra o aquecimento global

OSLO (AFP) — O Nobel da Paz atribuído nesta sexta-feira ao ex-vice-presidente americano Al Gore e ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) estabelece muito claramente a relação até agora um tanto oculta entre aquecimento global e o risco de conflitos armados no mundo.

Com este prêmio, a proteção ao clima é elevada à condição de prioridade como foi a luta contra o apartheid ou as minas antipessoais, o fim do conflito no Vietnã, a paz na América Central ou entre o Egito e Israel.

"As mudanças climáticas importantes podem alterar e ameaçar as condições de vida de uma grande parte da humanidade. Podem desencadear migrações em massa e criar uma feroz competição pelos recursos da terra", afirmou o presidente do Comitê Nobel, Ole Danbolt Mjoes.

"Podem apresentar um alto risco de conflitos violentos e de guerras entre e dentro dos Estados", acrescentou, assinalando que a "ação é necessária agora, antes que a mudança climática escape ao controle do homem".

Para o ex-coordenador de emergências da ONU, Jan Egeland, "as guerras climáticas já estão em andamento, especialmente em Sahel" (região africana situada entre o deserto do Saara e as terras férteis ao sul).

"Os nômades enfrentam os fazendeiros porque existe cada vez menos terras disponíveis por causa das mudanças climáticas", explicou aos jornalistas.

No ano passado, o ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, incluiu a mudança climática entre "as principais ameaças para a paz e a segurança".

Em função disso, o Conselho de Segurança da ONU organizou pela primeira vez um debate sobre o tema.

Annan explicava, como agora o faz seu sucessor Ban Ki Moon, o conflito de Darfur como uma crise que tinha sua origem na mudança climática.

O Prêmio Nobel pode dar um importante impulso ao esforço das Nações Unidas para convencer a comunidade internacional de atuar de maneira conjunta para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

A conferência que será realizada de 3 a 14 de dezembro em Bali, sob a direção da ONU, deverá traçar o cronograma das negociações que permitam ao Protocolo de Kyoto sobreviver depois de caducar em 2012.

"O fato de Al Gore receber um prêmio como este continuará elevando a importância desse tema", ponderou Navin Nayak, chefe do "The Heat is On", projeto eleitoral 2008 da League of Conservation Voters (LCV, Liga de Eleitores para a Preservação do Meio Ambiente) americana.

Os pesquisadores atribuem, com 90% de certeza, o aquecimento atual às atividades humanas e prevê um aumento de 1,1% a 6,4% da temperatura média do planeta até 2100.

"A ONU fará seu papel", prometeu Kofi Annan, "mas a responsabilidade principal e a ação dependem dos Estados e, a partir de agora, daqueles que são em grande parte responsáveis pelo acúmulo de dióxido de carbono (CO2, o principal gás de efeito estufa) na atmosfera", ou seja, os países industrializados.

Os Estados Unidos, o maior representante dos países industrializados e o maior poluidor do mundo em termos de gases de efeito estufa, nunca tiveram a mudança climática em sua agenda política.

Mas a concessão do Nobel da Paz a Gore não vai alterar a política ambiental do presidente George W. Bush, conforme advertiu a Casa Branca após a divulgação do prêmio.

O governo americano, através do porta-voz Tony Fratto, elogiou Al Gore pelo prêmio, que, segundo ele, "obviamente se trata de um importante reconhecimento".

No entanto, indagado sobre se a concessão do prêmio a Gore pode aumentar a pressão sobre a administração Bush para que modifique sua política ambiental, Fratto foi enfático: "Não".