Brasil manterá política de biocombustíveis, apesar da descoberta de petróleo

SANTIAGO (AFP) — A descoberta da gigantesca jazida de petróleo e gás de Tupi, na Bacia de Santos, anunciada na quinta-feira, não diminuirá em nenhum milímetro nossa política de biocombustíveis, afirmou o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, neste sábado, em Santiago, Chile.

Brasil e Estados Unidos, principais produtores mundiais de etanol, trabalham para que o biocombustível se transforme numa alternativa aos derivados do petróleo.

O governo brasileiro vem defendendo a expansão nos países em desenvolvimento do etanol. Atualmente, a lei brasileira exige a mistura de 25% de álcool à gasolina.

Além disso, Brasília dá incentivos à pesquisa para a produção de biodiesel, que deve ser misturado com o diesel em proporção crescente a partir do ano que vem.

Lula advertiu que "não há possibilidade de alguém desenvolver cultivos destinados aos biocombustíveis (cana-de-açúcar para o etanol e oleaginosas para diesel) na Amazônia", um dos pulmões do mundo.

A declaração do presidente brasileiro é uma resposta às críticas, especialmente européias, contra o risco de a produção de biocombustível contribuir para o desmatamento da Amazônia com uma série de conseqüências para o ambiente.

A descoberta da gigantesca jazida da Bacia de Santos, que aumentará as reservas nacionais de petróleo em 60%, "foi uma dádiva de Deus", comentou Lula.

"Estamos vivendo um momento muito bom na economia e esta descoberta colocará o Brasil numa posição privilegiada (...). Não dependeremos da política americana nem da política européia, dependeremos do que os brasileiros vão criar para o país", ressaltou.

A exploração desta jazida, em cerca de cinco ou seis anos, pode transformar o Brasil em um forte exportador de petróleo e levá-lo à Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), onde "lutará pela redução do preço do barril", acrescentou.

"Obviamente temos intenção de entrar neste cartel que decide a política de petróleo para o mundo inteiro (...). O Brasil deve se preparar para ter incidência nas políticas globais. Queremos contribuir para que haja justiça na economia mundial", concluiu.

Em entrevista à imprensa após três reuniões bilaterais sucessivas, com os presidentes Aníbal Cavaco Silva, de Portugal, e Evo Morales, da Bolívia, e com o vice-presidente cubano, Carlos Lage, Lula destacou o grande potencial energético da América do Sul e lembrou que seu governo quer formar alianças setoriais com todos os vizinhos "para atender às necessidades não apenas do Brasil, mas também do Mercosul e de todos os países latino-americanos".

O presidente brasileiro afirmou que espera que os acordos sobre a participação brasileira na exploração de gás e petróleo na Bolívia que serão assinados em sua visita a La Paz em 12 de dezembro tenham caráter definitivo.

"A descoberta do campo petrolífero na costa brasileira não muda nossa política, porque nos interessa que a matriz energética tenha muitas alternativas e quanto mais gás e petróleo tiverem Bolívia e Brasil, melhor", disse.

"O vínculo não é entre Evo e Lula, é entre Bolívia e Brasil e tem que ser definitivo. Os contratos têm que ser entre Estado e Estado, e não entre amigo e amigo", afirmou o presidente, após destacar que "vamos voltar com os investimentos na Bolívia".

"Ao Brasil, como o maior país da América do Sul, interessa viver em harmonia com todo o continente, e especialmente com um país com o qual temos uma ampla fronteira comum", continuou.

O presidente Lula assinalou que durante sua viagem a La Paz vai "levar alguns empresários" e destacou o interesse do Brasil em participar da criação de um pólo petroquímico na Bolívia.

A Bolívia precisa duplicar sua capacidade de produção de gás natural, que atualmente é de 40 milhões de metros cúbicos diários (MMCD), com os quais abastece principalmente o Brasil.