VORONEJ, Rússia (AFP) — Para todos os jornalistas russos que quiserem fazer perguntas constrangedoras sobre as eleições legislativas deste domingo, a advogada Galina Arapova, especializada na defesa dos meios de comunicação, deu um único conselho: não o façam.
"Escrever sobre as eleições? Eles não têm esse direito", explicou Arapova, chefe do Centro dos direitos dos jornalistas em Voronej, 500 km ao sul de Moscou.
Em virtude de uma lei aprovada após as legislativas de 2003, os jornalistas não podem mais escrever coisas positivas ou negativas sobre os candidatos, lembrou.
Neste contexto, a cobertura reduzida das eleições feita pela imprensa e a onipresença na televisão do presidente Vladimir Putin e de seu partido Rússia Unida levantam dúvidas sobre o caráter democrático destas legislativas.
"A lei eleitoral russa prevê que todos os atores políticos tenham um acesso igual aos meios de comunicação. No entanto, o Rússia Unida domina totalmente o cenário audiovisual", lamentou recentemente Luc van den Brande, representante da Assembléia Parlamentar do Conselho da Europa (APCE), durante uma visita a Moscou.
Olef Panfilov, chefe do Centro moscovita para o Jornalismo em Situações Extremas, concordou com a nálise do europeu. "Com tal televisão, é impossível ter eleições democráticas", considerou.
De acordo com um estudo do centro realizado em outubro, os três principais canais de TV russos, controlados pelo Estado, dedicaram entre 17% e 18% do tempo previsto para as informações políticas ao partido Rússia Unida.
Putin, que comanda a lista do Rússia Unida nas legislativas, pegou quase todo o tempo restante. A cobertura da atividade dos partidos de oposição segue sendo insignificante.
A União das Forças de Direita (SPS, liberais) e o Partico Comunista (PC) prestaram queixa e qualificaram de abuso de poder as intervenções televisivas do chefe de Estado para promover o Rússia Unida. No entanto, esta ação na justiça tem poucas chances de dar algum resultado.
Para o chefe da Comissão Eleitoral Central, Vladimir Tshurov, partidário de Putin, o presidente não desrespeita a lei eleitoral de nenhuma forma, e o Rússia Unida tem menos espaço na mídia "que todos os demais partidos somados".
Ele também afirmou que a lei não proíbe os jornalistas de criticar, mas tem como objetivo impedir a utilização da imprensa por alguns candidatos para difamar seus adversários.
No entanto, um jornalista de Voronej, Boris Volin, encarregado dos assuntos sociais no jornal Kommuna, afirmou ter sido processado uma dezena de vezes pelas autoridades locais por difamação.
"Nossos dirigentes locais têm um sistema nervoso muito sensível. Porém, quando vemos a situação atual do país, os desempregados que bebem, os jovens que usam drogas, não podemos deixar de escrever", justificou o jornalista.
Criticar as autoridades locais pode custar caro aos repórteres. As "penas" podem ir de multas e processos a espancamentos e assassinatos.
De acordo com o Comitê de Proteção dos Jornalistas (CPJ), a Rússia é o país mais perigoso do mundo para os jornalistas depois do Iraque e da Argélia. Segundo o CPJ, 42 jornalistas foram assassinados na Rússia desde 1992, sendo 13 desde a chegada de Vladimir Putin ao poder, em 2000.
Além disso, "vários jornais e canais de TV locais foram fechados porque as autoridades não aprovavam o trabalho deles", frisou Panfilov.
"O jornalismo é uma profissão cada vez mais perigosa" na Rússia, concluiu o decano da faculdade de jornalismo de Voronej, Vladimir Tulupov.
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