Bélgica nomeia primeiro-ministro após nove meses de crise política

BRUXELAS (AFP) — A Bélgica voltou a ter, nesta quinta-feira, um governo definitivo com a nomeação do cristão-democrata flamengo Yves Leterme como primeiro-ministro, após nove meses de crise política.

"O rei (Albert II) aceitou a renúncia do senhor Guy Verhofstadt de suas funções de primeiro-ministro e a partir da proposta deste nomeou o senhor Yves Leterme como primeiro-ministro", afirma a casa real belga em um comunicado.

A transferência de poder entre Verhofstadt, premier desde 1999, e Yves Leterme, de 47 anos e vencedor das eleições legislativas de junho de 2007, havia sido estabelecida no fim do ano passado pelos cinco partidos que formam a nova coalizão governamental.

O novo governo é composto por 15 ministros e secretários de Estado desses cinco partidos, três que falam francês (socialistas, liberais e de centro) e dois flamengos (cristão-democrata e liberal).

Por exemplo, o liberal flamengo Karel De Gucht continua à frente do ministério das Relações Exteriores, enquanto o liberal francófono Didier Reynders fica com a pasta das Finanças, e a centrista Joëlle Milquer, apelidada de "senhora não" em Flandres (norte) por sua intransigência nas negociações de 2007, entra no governo como ministra do Trabalho.

Leterme deverá insistir em seu discurso no Parlamento em seu programa sócio-econômico até 2011.

Contudo, os analistas já assinalaram a falta de coesão do novo governo, devido às diferenças ideológicas e os profundos desacordos pessoais.

Soma-se a isso o conflito, que já dura anos, entre os flamengos que falam holandês (60% dos 10,5 milhões de belgas), que pedem mais autonomia, e os que falam francês (40%), que desejam manter um poder central forte.

Se esta maior autonomia foi o carro-chefe da campanha de Leterme, as negociações posteriores para formar o governo mostraram que ela é impossível, devido à negativa dos francófonos de aceitar uma grande reforma do Estado.

O ponto culminante da crise aconteceu no final do ano passado, quando as duas partes estiveram próximas de uma ruptura total, evitada pelo então primeiro-ministro Verhofstadt, que aceitou liderar um governo "interino" de três meses para retirar o país de uma situação de paralisia.

Após este primeiro passo, flamengos e francófonos concordaram, em fevereiro, em realizar uma mini-reforma do Estado, que resultaria na transferência de certas competências do Estado central para as regiões, apesar de não ter o alcance que esperavam os flamengos.

Segundo este compromisso, um "grupo de sábios", que representa os grandes partidos de cada comunidade lingüística, deverá encontrar antes da metade do ano um novo equilibro entre o governo federal e as três regiões - Flandres (norte), Valônia (sul) e Bruxelas - que compõem o sistema institucional belga.

Em meio à forte pressão política e com um estado de saúde delicado após duas internações, Yves Leterme inicia seu mandato com pesquisas claramente desfavoráveis, já que 65% dos belgas "não confiam" no novo governo.