BANGCOC (AFP) — O movimento de protesto contra a junta militar em Mianmar, que deve continuar, poderia, segundo analistas, evoluir de duas formas possíveis: um início de diálogo ou uma violenta repressão, como a de 1988.
Os militares, que controlam a antiga Birmânia há 45 anos, estão enfrentando um movimento de massa pacífico dirigido pelos bonzos (sacerdotes budistas), profundamente respeitados no país.
Nesta terça-feira, os meios de comunicação oficiais birmaneses emitiram advertências explícitas aos manifestantes, reduzindo as chances de uma resolução pacífica apesar de uma forte mobilização internacional.
Segunda-feira, quando mais de 100.000 pessoas protestavam em Yangun, monges budistas pediram à multidão que não gritassem slogans políticos e que rezassem pela paz.
"Eles tiraram as lições do levante de 1988, quando as reivindicações partiam por todos os lados", explicou Aung Naing Oo, especialista em Mianmar que mora na Tailândia.
Resta saber se os militares também aprenderam as lições da repressão que conduziram naquela época, matando cerca de 3.000 pessoas.
"O Exército está acostumado a reprimir qualquer movimento pró-democracia, e nunca hesitou em fazê-lo no passado", lembrou Aung Naing Oo.
O que começou como uma tímida tentativa de protestar contra o aumento, em 15 de agosto, dos preços dos combustíveis, se transformou esta semana em uma ação popular de massa contra os militares.
Durante uma manifestação, domingo, algumas pessoas defenderam a instauração de um diálogo com o Exército, a reconciliação nacional e a libertação da opositora Aung San Suu Kyi, única Prêmio Nobel da Paz privada de liberdade em todo o mundo.
"As manifestações ainda podem acabar, mas isso parece cada vez menos provável. A hipótese mais plausível é uma dura reação do governo", considerou Mark Canning, o embaixador da Grã-Bretanha em Yangun. Mianmar é uma antiga colônia britânica.
"A maneira mais evidente de sair desta crise é negociar com as diversas partes envolvidas para chegar a algum tipo de consenso", acrescentou.
Para o birmanês Zarni, professor na Universidade de Oxford, o "cenário ideal" no contexto explosivo atual é o estabelecimento de negociações entre a junta militar e Suu Kyi e seu partido, a Liga Nacional para a Democracia, vencedora de eleições legislativas em 1990 mas nunca autorizada a governar.
Mesmo se Suu Kyi não for libertada, tais negociações já constituiriam um grande progresso, afirmou Zarni.
É impossível dizer por enquanto se o regime birmanês vai escolher o caminho do diálogo ou o da repressão, ainda mais porque o aparelho militar sempre foi abalado por lutas internas pelo poder, explicou o especialista.
Se a "linha-dura" triunfar, um cenário possível é a repetição dos trágicos acontecimentos de 1988 nas ruas de Yangun.
Entretanto, na época, a comunidade internacional não era tão mobilizada, e Suu Kyi ainda não tinha se firmado no cenário político como o símbolo da esperança democrática em Mianmar.
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