Desaceleração econômica é o tema central das eleições na Espanha
MADRI (AFP) — A economia nacional, afetada pela desaceleração mundial e pelo teto alcançado no setor da construção civil, se tornou o tema central da campanha para as eleições de domingo na Espanha.
O Partido Popular (PP, conservador) foi o primeiro a fazer do tema uma prioridade, há alguns meses. Afastada do debate político durante quase toda a legislatura centrada de José Luis Rodríguez Zapatero por falta de dados negativos, a economia também ficou em segundo plano devido ao predomínio de assuntos mais prementes como o terrorismo e as questões regionais, como o separatismo.
Nos últimos anos, a Espanha conseguiu melhorar seus principais indicadores: o crescimento passou de 3,1% em 2003 para 3,8% em 2007, ano em que se registrou o terceiro superávit orçamentário consecutivo (2,23%) em alta.
Em dezembro, o país superou a Itália no Produto Interno Bruto (PIB) por habitante, segundo dados da Comissão Européia.
O desemprego caiu de 11,5% em 2004 para 8,3% em 2006, mesmo movimento da inflação, tradicional cavalo de batalha espanhol, que fechou próxima dos 2% recomendados pela União Européia.
Mas o freio da economia mundial que foi puxado depois da crise do "subprime" nos Estados Unidos e a contínua subida de preços do petróleo também tiveram reflexos na Espanha, onde o desemprego voltou a subir três pontos em 2007 e a inflação chegou a 4,3%, em sintonia com a situação no resto da Europa.
Para os conservadores de Mariano Rajoy, a Espanha passa por uma crise econômica, mas o governo "não previu o que viria", segundo seu número dois, o ex-presidente da Endesa e candidato a ministro da Economia, Manuel Pizarro.
No final dos anos 90 e no início dos 2000 o crescimento espanhol se solidificou através dos investimentos na construção civil, setor que já era preponderante no país, e o número de empreiteras e construtoras aumentou.
Agora, algumas fecharam as portas e o desemprego disparou no setor (+12,8% em dezembro). Some-se a isso a forte alta dos juros das hipotecas.
A partir de 2003, com as taxas de juros européias em seu nível mais baixo (2%), aumentou a procura por imóveis, em um momento no qual o preço destes também passou a subir.
Muitos dedicaram grande parte do salário para pagar o empréstimo, mas os juros subiram até 4% e já há famílias passando por dificuldades para pagá-los.
Além disso, desde meados de setembro, a inadimplência é cada vez maior.
Em 2007, a concessão de empréstimos caiu 5,1% em relação a 2006, com uma média de 149.000 euros (223.500 dólares, um aumento de 6,2%) por empréstimos, a uma taxa de juros média de 4,7% com prazo de pagamento médio de 26 anos, ambas cifras em alta.
Isto em um país com uma renda média anual de 22.000 euros, mas com cada vez mais trabalhadores com nível superior chamados de "mileuristas" (com salários que não chegam a mil euros mensais) e com o salário mínimo em 600 euros - um dos mais baixos da zona do euro. Em Luxemburgo, por exemplo, o salário mínimo é de 1.500 euros, enquanto na França o valor chega a 1.200.
A inflación fez com que o leite lidere a lista de produtos que mais puxou a alta dos preços dos alimentos, com +25,85%.
Com todo isso, não é de estranhar que a confiança dos consumidores tenha caído ao longo dos últimos nove meses.
Diante desse panorama, o PP propõe eximir de impostos pessoas que ganhem menos de 16.000 euros anuais, além de apostar na criação de 2,2 milhões empregos.
Zapatero, por sua vez, garante que "a desaceleração não será nem profunda nem prolongada", e que o país é o "melhor preparado".
O ministro da Economia, Pedro Solbes, que diz que a inflação deixará de subir em breve, é contra diminuir os impostos porque prefere manter os programas sociais.
Mas Zapatero prometeu devolver 400 euros para quem pagar seus impostos e quer criar 2 milhões de empregos, aumentar o salário mínimo para 800 euros em quatro anos e permitir que famílias com problemas possam ampliar o prazo de pagamento de hipotecas sem custos adicionais.

