China volta atrás em sua promessa de não censurar a internet durante os Jogos

PEQUIM (AFP) — Como os 253 milhões de internautas chineses, os jornalistas estrangeiros, creditados para os Jogos Olímpicos de Pequim, só terão acesso a uma versão censurada da internet, ao contrário do prometido pelas autoridades.

Esta decisão, confirmada nesta quarta-feira a apenas dez dias do início do evento, desencadeou uma nova polêmica.

"Durante os Jogos Olímpicos, vamos fornecer o acesso à internet suficiente para os jornalistas", mas não será possível acessar certos sites, como os que trazem informações sobre o movimento espiritual Falungong, que é proibido na China, disse Sun Weide, porta-voz do comitê organizador dos Jogos.

Os jornalistas que já estão no centro de imprensa dos Jogos se queixam da falta de acesso aos sites da Anistia Internacional, BBC, da rádio alemã Deutsche Welle e dos jornais Apple Daily, de Hong Kong, e Liberty Times, de Taiwan.

"Nossa promessa era disponibilizar para os jornalistas os serviços de Internet necessários ao seu trabalho durante os Jogos Olímpicos, e estamos permitindo este acesso", disse Weide.

O Comitê Organizador dos Jogos, pressionado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), tinha prometido um acesso completo à Web por parte dos milhares de jornalistas que cobrirão os Jogos de Pequim.

O presidente do COI australiano, John Coates, reagiu ao anúncio afirmando que o Comitê Olímpico Internacional tomará "muito seriamente" a censura da Internet durante os Jogos.

"É algo seguramente decepcionante. Penso que é um assunto que o COI vai tomar muito seriamente", declarou Coates à imprensa.

O Comitê Olímpico Internacional revelou que pedirá informações às autoridades chinesas sobre as restrições de acesso à web.

A organização de defesa da liberdade de imprensa Repórteres Sem Fronteiras (RSF), por sua vez, divulgou nesta quarta-feira "alguns conselhos aos jornalistas estrangeiros" que desejam abordar a situação dos Direitos Humanos na China durante os Jogos Olímpicos de Pequim.

A RSF divulga em particular uma lista de páginas na internet que permitem instalar nos computadores programas elaborados para enganar os firewalls ("barreiras" colocadas entre os computadores e a rede).

Aconselhamos os jornalistas a equipar seus computadores com códigos de acesso, que não os deixem sem vigilância e levem em conta a ausência de privacidade nas comunicações.

A ONG pede também que os jornalistas tomem cuidado com anotações contendo os contatos de dissidentes, não utilizem os serviços oferecidos pelas empresas chinesas -geralmente ligadas às autoridades- e levem consigo uma tradução para o chinês das normas em vigor para os membros da imprensa internacional.

Por fim, aconselha os jornalistas a informar suas embaixadas, ao Clube de Correspondentes Estrangeiros da China, à RSF ou ao Comitê Olímpico Internacional sobre "qualquer atentado" contra sua liberdade de movimento ou impedimento à realização de entrevistas.

Os jornalistas estrangeiros que chegam à China para cobrir os Jogos Olímpicos acabam constatando que, ao contrário do prometido pelas autoridades chinesas, terão acesso apenas a uma versão censurada da internet.