Filarmônica de Nova York faz apresentação histórica na Coréia do Norte

PYONGYANG (AFP) — As notas do hino nacional norte-americano arrebataram as 1.500 pessoas que foram nesta terça-feira ao Grande Teatro de Pyongyang, em um histórico concerto da Orquesta Filarmônica de Nova York que tem por objetivo ajudar a estreitar os laços entre Estados Unidos e Coréia do Norte.

A exibição da mais antiga orquesta norte-americana, cujos músicos integram a maior delegação dos Estados Unidos a visitar o fechado país comunista, ocorre em um momento de tensão no que tange às negociações do processo de desarmamento nuclear norte-coreano.

Os 106 músicos da Filarmônica foram aplaudidos pelos 1.500 espectadores ao entrar no palco, decorado com bandeiras dos dois países.

Em seguida, interpretaram o hino norte-coreano, seguido do norte-americano.

"É um prazer para meus colegas da Filarmônica de Nova York e para mim tocar nesta preciosa sala hoje", disse o diretor Lorin Maazel antes de empunhar a batuta para dirigir a Nona Sinfonia de Antonin Dvorak, conhecida também como a Sinfonia do Novo Mundo.

Após apresentar a obra em inglês, Lorin Maazel disse em coreano: "Por favor, desfrutem".

Depois, ao apresentar uma obra do compositor norte-americano George Gershwin, Maazel disse: "Chama-se 'Um americano em Paris'. Um dia, algum norte-americano poderá escribir uma obra chamada 'Americanos em Pyongyang'".

O programa também era integrado pelo Prelúdio ao III Ato da ópera "Lohengrin" de Richard Wagner.

Após o concerto, seis músicos norte-coreanos serão convidados para interpretar um bis preparado com a orquesta.

A apresentação representa um intercâmbio cultural sem precedentes entre Estados Unidos e Coréia do Norte: o regime de Pyongyang foi incluído em 2002 pelo presidente George W. Bush entre os países do chamado "Eixo do Mal" devido as suas ambições nucleares.

Mas houve uma evolução de posturas desde o ano passado, após o acordo alcançado nas negociações a seis, entre Coréia do Norte, Estados Unidos, Rússia, Japão, China e Coréia do Sul para que Pyongyang desmantele todos os seus programas nucleares.

Esse acordo parece no entanto sofrer atrasos, e a secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, se encontrava nesta terça-feira em Pequim, onde pediu que a China faça uso de sua influência sobre a Coréia do Norte para dar um novo impulso ao processo de desarmamento nuclear.

Nesta terça-feira Rice considerou o concerto positivo, mas afirmou que o regime comunista ainda deve percorrer um longo caminho para se transformar.

Washington e Pyongyang permanecem tecnicamente em guerra desde que a Guerra da Coréia (1950-1953) terminou em um armistício que dividiu em dois a Península Coreana, mas sem acordo de paz.

O diretor Maazel afirmou que os responsáveis pela orquesta debateram por muito tempo se seria apropriado ir à Coréia do Norte e que eram informados a respeito do que acontecia no país por Christopher Hill, principal negociador norte-americano nas conversações a seis.

"Quando os norte-coreanos nos virem ao vivo pela televisão verão o que são os norte-americanos (...), pessoas que se importam com a arte, apaixonadas por seu trabalho e que falam uma linguagem que podem compreender", disse Mazeel.

O presidente e diretor executivo da Filarmônica de Nova York, Zarin Mehta, disse à AFP que Hill "considerou que mostrar esta face da cultura ocidental em Pyongyang ajudaria a manter as negociações em uma atmosfera muito melhor, embora não haja garantias".