Ingrid: espiritualidade a salvou do abismo, apesar de suicídio ser idéia diária
PARIS (AFP) — A franco-colombiana Ingrid Betancourt afirmou que a "espiritualidade" a ajudou a não cair no "abismo" diante do comportamento de seus carcereiros, que a obrigaram a usar algemas por 24 horas do dia durante três anos, em uma entrevista a uma rádio francesa. Durante coletiva na embaixada francesa em Bogotá, ela revelou ainda que pensou diariamente em suicídio nos seis anos que passou refém das Farc.
Entrevistada pela rádio Europe 1 pouco antes de deixar a Colômbia com destino a França, onde deve chegar na tarde desta sexta-feira, Ingrid Betancourt afirmou ter sido vítima de torturas, vexames e humilhações durante os seis anos e quatro meses de detenção pelas Farc.
"Senti que existe a tentação de se abandonar a comportamentos demoníacos (...); acredito que é preciso conservar uma grande espiritualidade para não cair no abismo", disse a ex-refém das Força Armadas Revolucionárias da Colômbia.
"Usei algemas o tempo todo, as 24 horas do dia, durante três anos", acrescentou.
"Houve momentos de grande crise, de grande dureza, de maus-tratos. Havia momentos em que tentavam mostrar outra faceta porque era tão mostruoso que me parece que eles mesmo estavam enojados", completou.
"Quando subi no helicóptero e voamos sobre a selva, disse a mim mesma que os detalhes sórdidos não deveriam ser conhecidos", explicou Ingrid Betancourt.
A ex-refém da guerrilha colombiana, que foi vista rezando várias vezes desde a libertação na quarta-feira pelo Exército colombiano, anunciou que o Papa Bento XVI a receberá na próxima semana no Vaticano.
Acompanhada pelos filhos, Melanie e Lorenzo, que se encontraram com ela em Bogotá, Betancourt deve chegar à tarde em Paris, onde será recebida pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy, e sua esposa Carla Bruni.
Na embaixada, Betancourt assinalou que "a tentação do suicídio era permanente em todos" os reféns e que alguns chegavam a "ensaiar" este suicídio.
"No meu caso, a tentação era diária, no sentido de pensar no suicídio e dizer: será uma opção? Serei capaz? O que meus filhos vão pensar? Mas sempre desistia porque tinha uma base muito forte, que era o programa de rádio diário pelo qual me punham em contato com minha mãe, que dizia o que estava acontecendo com minha família, meus filhos".
Betancourt, sequestrada em 23 de fevereiro de 2002, disse que "a morte é a companheira mais fiel do refém, porque as pessoas que nos prendem têm a ordem de nos matar a qualquer momento".
A política franco-colombiana foi resgatada nesta quarta-feira, junto com os reféns americanos Thomas Howes, Marc Gonsalves e Keith Stansell, que trabalhavam para o departamento de Defesa dos EUA, e 11 membros das forças de segurança colombianas.

