Deslocamentos de criminosos e vítimas reconstituídos pelos cabelos

CHICAGO, EUA (AFP) — Basta um único fio de cabelo para reconstituir os deslocamentos de uma pessoa pelos Estados Unidos, graças a um novo teste que poderia permitir à polícia verificar álibis e identificar vítimas de homicídios, segundo um estudo publicado nesta segunda-feira.

Com simples amostras de água da torneira e restos de cabelos recolhidos em salões de beleza de todo o país, pesquisadores da Universidade de Utah (oeste dos EUA) conseguiram colocar em evidência diferenças químicas significativas o suficiente para servir de marcadores geográficos.

"Você é o que come e bebe, e isso se imprime em seus cabelos", explicou Thure Cerling, bioquímico e co-autor do estudo publicado nesta segunda-feira pela revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

O estudo mostra que 85% das variações dos isótopos de hidrogênio e oxigênio nos cabelos de uma pessoa se devem às diferenças de composição da água potável.

Um único fio de cabelo pode, portanto, permitir determinar o lugar onde se encontrava uma pessoa semanas, ou até meses atrás, segundo o tamanho do cabelo e do tempo que ele demorou para crescer.

A equipe de Cerling elaborou um mapa dos diferentes níveis de isótopos de hidrogênio e oxigênio presentes nos cabelos, em todos os Estados Unidos. O mapa não permite determinar locais exatos, mas define diferentes zonas geográficas. Isso já permitiu reconstituir o itinerário de uma vítima de assassinato não identificada encontrada em Utah.

"Trata-se de um método fenomenal", entusiasmou-se Todd Park, o policial que busca identificar esta mulher, com o corpo encontrado em 2000 no condado de Salt Lake City.

Uma amostra de seus cabelos permitiu estabelecer que ela passou os dois últimos anos de sua vida entre os estados de Idaho, Montana, Wyoming, e talvez também nos estados de Washington e Oregon (oeste e noroeste dos Estados Unidos).

Esta técnica também pode ser utilizada pelos médicos que tentam determinar os sintomas mostrando o agravamento de doenças vinculadas à alimentação, ou por antropólogos ou arqueólogos que buscam estabelecer as migrações de povos ou de animais desaparecidos, explicaram os autores do estudo.

Um tipo de análise semelhante, desenvolvido por Jim Ehleringer, um dos autores do estudo, já está sendo utilizado pela Agência Antidrogas americana (DEA) para determinar onde amostras de cocaína e heróina foram produzidas.